|
A penumbra já permeia
Na toada muitos grilos.
Quando azul do céu plumbeia,
Dizem eles em cricrilos
Do véu negro que se deita
Sobre a mata em suspiros.
Enquanto a lua ao céu enfeita,
Voam aves aos retiros.
E na cor da escuridão
Vem então o que fascina:
É a imaginação
Que colore e desatina
A mente sábia do ancião
Que cerrou sua retina.
Com tintas faz de-coração,
Pinta tudo o que imagina:
Borboletas que dormindo,
De sua mente saem voando,
No espaço colorindo
O que está imaginando.
E deslizam as serpentes,
Pelo chão vão arrastando
Anéis brilhantes em correntes
Às raízes enfeitando.
E as árvores contentes
De abraços com cipós
Vão tecendo inteligentes
Natureza em muitos nós.
Lá do seio das nascentes,
Água que também não dorme,
Já murmura outros viventes,
Pede à vida que se forme:
Brilha folha do taiá,
Vento abana bananeira.
É a noite a conversar
Com a natureza inteira.
E o velho ancião...
Nesta noite em que sonha,
Olha pra imaginação
E pergunta com vergonha:
Quem será que vê assim?
A escuridão é tão sem roupa...
Ou será que está em mim
Natureza de alma louca?
E lhe responde o cogumelo
Quase à beira do riacho:
O que imaginas é tão belo,
Faço parte deste tacho!
Na ciranda dos felizes
Noite vai se encantando,
Colorida dos matizes
Que o velho imaginando...
A ti pergunta: o que dizes?
Desta noite assim vivendo?
Desejando que divises
O que ele está vendo!
(Jairo Martins) |