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POERMO

 


 

Embebedo-me simplesmente.
Talvez seja dos mais ricos do mundo,
mas sinto-me mais pobre ou podre, sei lá.
O que posso e não faço,
o que quero e não tenho,
o que está a meu alcance e não pego,
o que tenho e não quero...
Enfim, o que faço de mim,
talvez maldizendo-me com nãos,
meus sins espalhar
por calçadas trilhadas a pés nus
como se carniça fossem alimento aos urubus.
Mas na rua, verte sangue de carne crua
e pergunto:
quem se cria ou se cura dessa vida de poesia?
Outro tanto e te farto.
Estou farto de pranto!
No entanto,
insisto em dizer do parto,
derramar alma na rua,
enxugar lágrimas em lençol de lua...
Essas coisas que o sol não vê,
mas seca quando está.
Essas coisas ficam à sombra dum canto de meio-fio,
limo ou ostra medrando no limbo de pés passantes,
esses instantes pelos quais ninguém dá nada e,
quem sabe, nem dêem nada a ninguém.
O ralo do bueiro grita poesia também!
O rato ama o açougueiro
tanto quanto o boi ama o capim.
E a faca da vida retalha esse "poermo" em mim.

Jairo Martins