ÁGUA AOS CAVALOS (Jairo Martins)
Água aos cavalos
Cansados da troça,
De puxar a carroça
Pela estrada da roça
Que não tem intervalos.
Capim aos heróis
Cansados da lida
De levar nesta vida
Sua cabeça erguida
Às luas e sóis.
Luz à visão
Dos cavalos e éguas
Que cavalgaram sem regras
As pradarias sem tréguas,
Galopes do coração.
Atingiram as metas:
Descobrir o intangível,
Enxergar o invisível,
Enfrentar o horrível.
É missão dos poetas.
Água aos cavalos,
Capim aos animais
Que de tão serviçais
vão rompendo os umbrais,
Libertando vassalos.
Água ao cavalo
avesso à cavalhada
segue desenfreada
sua feliz cavalgada
sem cessar o embalo.
Água ao cavalo
que não permite maneio,
que já perdeu todo freio,
que não se prende a esteio,
não temendo o abalo.
As rédeas e arreios
Atirados ao chão,
Um veloz alazão
Com um grito de NÃO
Tropa aos corcoveios.
Cavalo sem água
Que por todo o meio
Escoiceia o correio
E a mensagem que veio
Vai lavar sua mágoa.
Este é o fim da agonia
Prado verde brotado
Cessa o trote apressado
O animal tem pastado
No campo da poesia.
RECORDAÇÕES DO ITAJAÍ-AÇU
Desde a ponte de ferro à praça
Vinha a nado quando era criança
Água fresca, dádiva e graça
Esse tempo não sai da lembrança
Hoje em dia tu estás poluído
Mesmo assim são belas tuas curvas
Aquele tempo ainda está refletido
Em tuas águas que agora são turvas
Eram limpas, tom esverdeado
Via o fundo quando mergulhado
O teu leito de areão espalhado
Lembro de criança os folguedos
Nas tuas águas afogava meus medos
Nadando e descobrindo segredos
Jairo Martins
REDE
Teceu uma rede de mentiras,
deitou-se nela e relaxado adormeceu.
Uma a uma, romperam-se suas tiras,
e a verdade é, que ao chão desceu.
Teceu uma rede de ilusões.
Feliz então ali ficou deitado.
Levantou-se aos tropeções,
enfrentando-se acordado.
Teceu uma rede de amarguras
e para dormir, nela descansou.
Mas suas amarras eram tão duras
que a rede o machucou.
Teceu uma rede de amor
e na rede se jogou para desfrutar.
Mas lhe ocorria uma dor,
faltava alguém a lhe acompanhar.
Teceu uma rede de idéias
e ali se espichou para pensar.
Mas a rede tanto balançou
que nela nem pode descansar.
Teceu uma rede de verdades,
e cansado, nela se esticou.
Adormeceu sonhando felicidades
e nunca mais se acordou.
Jairo Martins
REVOADA
Vê se imaginas, vê se comparas
Tantos os cantos, tantas as cores:
Periquitos, tirivas e araras,
Papagaios, gaivotas, beija-flores,
Gaturamos, tiés, bem-te-vis,
Gaipavas, pardais e tem mais:
Gralhas, arapongas, siriris,
Tucanos, colibris, cardeais,
Joões de barro, inhambus, sabiás,
Saíras, xexéus, curiós,
Pica-paus, pintassilgos, biguás,
Correcas, juritis e socós,
Cambacicas, cisnes, rolinhas,
Canários, tico-ticos, uirapurus,
Cancãs, quero-queros, andorinhas,
Gaviões, águias e urubus,
Bicos-de-lacre, tesoureiros, urus,
Pelicanos, tizius, coleirinhas,
Melros, albatrozes, sanhaçus,
Galinhas-d'água, tangarás, pombinhas,
Corujas, araquãs e pavões,
Peixes-fritos, chupins e condores,
Anus, perdizes, faisões,
Garças e os martins-pescadores.
Trinar / Trilar / Dobrar / Arrulhar
Piar / Pipilar / Chilrar / Gorjear / Chilrear
CANTAR!
JAIRO MARTINS
TREVA POÉTICA
Essa andança trôpega em meio às letras,
essa vã tentativa de trazer à grafia
o que bole no íntimo.
Esses olhos perdidos a olhar estrelas,
essa manhã intempestiva, a poesia,
o evolar-se do espírito.
Esse erro todo, cometido
pelo próprio medo de errar.
E esta ola (^) é o dito.
Essa mentira em que se torna o sentido
depois de nas palavras se espalhar,
e o que se ala é o mito.
Essa cortina, melhor deixar como está.
Essa sina assassina é sua própria punição
E não bale o bom cabrito.
Posto que a palavra é a pá
que cavuca no poeta o coração,
então vale este grito.
Jairo Martins
A NOITE, A SELVA, O ANCIÃO E A IMAGINAÇÃO
A penumbra já permeia
Na toada muitos grilos.
Quando azul do céu plumbeia,
Dizem eles em cricrilos
Do véu negro que se deita
Sobre a mata em suspiros.
Enquanto a lua ao céu enfeita,
Voam aves aos retiros.
E na cor da escuridão
Vem então o que fascina:
É a imaginação
Que colore e desatina
A mente sábia do ancião
Que cerrou sua retina.
Com tintas faz de-coração,
Pinta tudo o que imagina:
Borboletas que dormindo,
De sua mente saem voando,
No espaço colorindo
O que está imaginando.
E deslizam as serpentes,
Pelo chão vão arrastando
Anéis brilhantes em correntes
Às raízes enfeitando.
E as árvores contentes
De abraços com cipós
Vão tecendo inteligentes
Natureza em muitos nós.
Lá do seio das nascentes,
Água que também não dorme,
Já murmura outros viventes,
Pede à vida que se forme:
Brilha folha do taiá,
Vento abana bananeira.
É a noite a conversar
Com a natureza inteira.
E o velho ancião...
Nesta noite em que sonha,
Olha pra imaginação
E pergunta com vergonha:
Quem será que vê assim?
A escuridão é tão sem roupa...
Ou será que está em mim
Natureza de alma louca?
E lhe responde o cogumelo
Quase à beira do riacho:
O que imaginas é tão belo,
Faço parte deste tacho!
Na ciranda dos felizes
Noite vai se encantando,
Colorida dos matizes
Que o velho imaginando...
A ti pergunta: o que dizes?
Desta noite assim vivendo?
Desejando que divises
O que ele está vendo!
(Jairo Martins)
AO POETA E À POESIA (Jairo Martins)
Brumas...
De praias e estradas.
Rumas até onde ninguém vai.
Com silêncio das madrugadas
Rimas teu "Ai!"
Nu'Alma cor de leite
O deleite é a nata,
Nas espumas da alvorada!
Nas manhãs de escuros,
Galga os muros antes de acordares.
Porque enterras as guerras,
Navegas revoltos mares,
Fecundas estéreis terras.
Aplacas as mágoas
Quando há placas de mágoas
Em soltos amares.
POESIA !
És nas aldeias o efeito do rogo,
O fogo que ateias não se desfaz,
E corre nas veias teu grito de paz.
Não se vexa quem te usa como flecha,
Vertida e lançada!
E a caneta comete tua estrada,
Cometa perfeito da harmonia:
POESIA !
Passem os poetas!
Canudos uivantes do vento da vida.
Passem os profetas,
Ao se cumprirem profecias.
Foram feitos ao mundo e não afeitos a ele.
Carregam defeitos, são vagabundos,
Apartam-se dele porque fecundos
ao que lhes é de valia:
POESIA !
Alegria de corações imbatíveis,
Capaz de invencível ser
porque toma homens a seu fazer.
E a despeito de que assim não queiram,
são levados ao cometimento destemido
de terem assim vivido.
POESIA !
BRINDE AOS POETAS (Jairo Martins)
Grandes poetas têm me enviado textos,
agradeço por me darem pretexto
para inspiração, coragem e alegria,
dádivas puras da poesia
Também levanto o meu cálice,
Brindando convosco este ápice
Que nos ala, protege e acalenta,
Fazendo a alma sair da placenta.
As palavras por nós proclamadas,
Acrescentam nobreza ao que é belo.
Num colar de cristais tão singelo
Nossas lágrimas são transformadas.
Brindemos ao sal do oceano,
Bebamos o balanço do mar.
Há um abismo entre sonho e engano,
Por isso, poetar, navegar!
Dancemos ao som dos trovões,
Na chuva e ao vento também.
Pois, lá dentro dos corações,
Possuímos o infinito e o além.
Caminhemos por sobre este solo,
De flores, de espinhos, não importa!
Atravessemos de pólo a pólo,
Colhendo frutos da fértil horta.
Vivamos esta efêmera vida,
Como se eternidade ela fosse.
Pois temos essa guarida:
Transformamos o amargo no doce.
E neste breve instante apenas,
Descubramos que o eterno aguarda.
Poetas, nós somos mecenas!
Poesia não falha e a vida não tarda.
CHEIRO DA MORTE (Jairo Martins)
Angústia que invade o coração,
Sem alívio ele busca a liberdade
E se ofusca diante de quente clarão,
Um fogo consome a tranqüilidade.
Astúcia do ser de amar feito flor,
buscando ligeira suavidade
como se fosse a paz inimiga do amor,
como se fosse a vida eternidade.
Ilusão que brota do interior
fazendo de nós uma flor em botão
exalando de si misterioso olor,
entorpecendo assim a poderosa razão.
Obliterada visão cheirando a mistério,
mantidos contatos de gosto e de tato.
E o gelo do morto no cemitério
inexorável encarcera o místico fato.
Diante da morte e de outros confins,
vagueia errante um solitário.
E enquanto apodrecem terráqueos afins,
sorri ciente de que a morte é um falsário.
Agonia infinda em que ninguém pensa,
esta vida ainda é a que mais compensa.
E do outro lado como será?
Ninguém quer saber, deixar como está.
Serei eu que te espetarei com o tridente?
Será um querubim a te buscar triunfante?
Ou seria o tema inconveniente?
Amarro-te na morte só mais um instante?
Liberto-te da ilusão desta vida?
Entrego-te a mais um tormento?
Abro-te esta horrenda ferida
Dizendo que é rápido aqui teu momento?
A mim mesmo faço o que agora te faço,
quer gostemos ou não desta ida.
Espera-nos a morte com fatal abraço,
Abracemo-la! Pois faz parte da vida.
DOÍDA VIDA DE IDA
Ao porre duradouro, ilusão da vida,
Feito bois ao matadouro somos nós caminho de ida.
O que ferra o coração, a certeza de então,
Olhos esbugalhados, goles entorpecidos...
E cedo se vai est'água-vida, engolida pela garganta tempo.
Durante a descida, tantas frutas desfruta-se no couro,
Cuspímo-las por bolsas de ouro,
Enquanto segue solta esta agonia do evolar-se.
Não mais que um segundo de tempo primeiro tem-se aqui.
Por único tento sem volta está tua estrada,
Estátuas na entrada, sarcófagos de saída.
Bendita e amada vida, aprisionada no lógico,
Escorrendo por um furo de ponteiro no relógio.
O macaco olha passivo o passar do tempo,
Vendo inexorável o crivo que lhe chama para o vento...
Não mais que isso, nem menos...
Mas pelo menos, um porre de vida!
Jairo Martins
ESTRADA BEIJO
1
Vai brejeira minha boca
No teu corpo a passear,
Já encontrando a tua louca
Para também me beijar.
Doces beijos bem molhados,
Nossas bocas tão unidas,
Línguas, lábios misturados
Com paixões incandescidas.
No pescoço as mordidas
Deixam pele bem crispada
E gemidos de voz rouca.
Na orelha são lambidas
As respostas que a amada
Diz com sua linda boca.
2
Lindos seios com mamilos
Em volúpia encrespados,
Sugo a fonte dos sigilos
De nós dois apaixonados.
São colinas ondulantes
Tuas nádegas e cochas
Que com beijos abundantes
Umedeço e te afrouxas.
E intenso é o deleite
Que me leva ao delírio,
O teu revide amoroso
Pois tu pedes que eu me deite
E aumentas nosso idílio
Com teu beijo mais gostoso
3
Quase que inconscientes
Pela estrada destes beijos
Que seguimos tão ardentes,
Vêm ao fogo mais lampejos.
Doadores e doados,
Entre nós não há barganhas,
Muito menos há pecados:
Nossas bocas beijam entranhas.
É total nosso calor,
É completa a união,
Tudo em nós agora é único.
Eros é possuidor,
Tem o nosso coração,
Nosso corpo agora é lúdico.
4
Linda estrada infinita
E seguimos cavalgando.
Nosso ser todo se agita,
Vai então se entrelaçando.
Nós num só nos convertendo,
Secreções multiplicando,
Algo em nós se derretendo,
Dentro a alma se lavando...
Vertem lágrimas os olhos,
Nossa pele é só suor,
Vem nos corpos um espasmo...
Noutras partes outros óleos,
Muco e esperma, um mar maior,
Mergulhamos no orgasmo!
Jairo Martins
FIM DE ESTRADA EM ARCO-ÍRIS (Jairo Martins)
De acordo com o arco-íris que me foi deixado para ficar olhando... ao léu...
E que já não toca nenhum ponto, nem na terra nem no céu;
A cor do coração é vermelho-sangue-escorrido.
A cor da lágrima é branco-prata-em vão.
A cor da saudade é azul-transparente-horizonte.
A cor do amor é cinza-diáfano-esquecido.
A cor da esperança é amarelo-ouro-clarão.
A cor do companheirismo é de burro quando foge.
A cor da consideração é incolor com bolinhas da mesma cor.
A cor do sorriso é bege-pus-espremido.
A cor da cumplicidade é marron-barro-esfarelado.
Acordo, olho o arco em minha íris e aceito,
mas discordo da esteira mal tecida em minha lágrima escorrida,
onde a cor índigo da felicidade é negro-indignação,
porque o suave rosa-olá descorou num preto-adeus.
Não brinquei de amar.
Hoje sou o brinquedo quebrado que não soubeste usar.
Hoje sou boneco obsoleto que perdeu o amuleto de teu eco.
Hoje, meu abraço é cansaço e meu beijo é queixa.
Meu calor é calo fundo e frio.
Meu ser é pasmo e vazio, o homem está só.
Meus óleos, agora secos como pó,
tapam as pegadas das caminhadas a dois
e o mau pintado arco-íris tem no seu fim um pote do depois...
O amor quando é doce nos faz muito bem,
mas a ausência assassina nos ensina
que não se precisa daquilo que não se tem.
Se a missão do poeta é transformar o amargo no doce,
ou se fosse,
do nobre e do belo, e até mesmo da vida na pior agrura,
fazer literatura,
inda que mal executada, talvez tenha sido cumprida.
Mas a missão de quem ama, foi abortada, interrompida.
Hoje sei que não sou nada e que as flores murcham sim, inevitavelmente.
Meus humores: lágrima, saliva, linfa, sangue, suor e sêmen; têm o gosto de fel.
Mas a palavra é pedra que se deitará sobre o túmulo da boca ora silente.
É navalha que nos talha e retalha a alma, como a escrita ao papel.
E agora que se esvai a última gota de sentimento, fica o documento.
FINALISMO
Quero outra que me tome por inteiro;
Vez de viver.
Já faz tempo que espero
Um pouco mais do que é vero,
Dentro do poema.
Depois do oceano dos temas,
Do deserto e da escuridão de nenhum,
Já não há um louco a mais.
Há mais um pouco a amar
Dentro de cada um.
Jairo Martins
FOGO DE AMOR
Que bom seria se aqui tu estivesses, rasgaríamos as vestes sem nenhuma cerimônia, existiria em nossos corpos um calor,
sem parcimônia beberíamos o amor.
Então seria cada beijo um grande gole
a molhar o bole-bole do desejo de se amar.
E se lá fora houvesse chuva ou estrelas,
só choveria cada gota a brilhar.
A luz das telhas ao beirado escorreria,
pela janela em cortina desceria,
refletiria na retina o nosso olhar,
brilhando em sexo o reflexo do amar.
Depois da noite escuridão esvaecida,
boca de açoite em nossa pele tão molhada, sofreguidão de nossos beijos escorrida.
Em nossa casa de paixão amanhecida,
numa só brasa nosso corpo estaria.
Lençol de sol quando então viesse o dia, envolveria corações num só tesouro.
Fogo de ouro inflamado em mim e ti,
rastro queimado e passantes nossos pés.
Que bom que és e que vens estar aqui !
Jairo Martins
HORA DA POESIA
A hora inesperada, aquela da inspiração, tão almejada,
surge assim de sopetão.
Em alegria ou agonia lacrimam as palavras
E na hora da poesia, a mais bela das lavras:
A hora de definir em espontânea expressão
um pensar ou sentir que legue a outrem compreensão,
e talvez além disso bem mais:
A descoberta de ler o que se tem latente,
esse toque de alguém capaz de dizer o que se sente.
A nova idéia ou boa nova, até o jeito de dizer coisa antiga,
também isto nos prova que a poesia é cantiga.
Percorre ventos e povos e nos toca aos ouvidos
com seus acordes sempre novos, fazendo-nos possuídos
por este momento terno com perfume de eterno.
Um minuto fugaz ou passageiro que nos toma por inteiro,
e que depois vai passar, eu sei que vai.
Mas o poeta é obreiro, com as letras tece a rede,
e aquele momento dali não sai.
Estende a rede no papel, e alguém ali mata sua sede,
bebe uma gota do mel, vislumbra um pedaço do céu.
Ousadia dos poetas, dizerem-se donos de suas ilações.
Tolice de leitores e doutores, nominarem preferidos autores.
A poesia é que os toma para si, alcançando próprias pretensões.
É como chuva inesgotável nesta hora a nos cingir,
Gota a gota inefável, que por sobre nós ao cair,
Tranforma-se em lágrima-letra, molhando o poeta de ilusão
e ele com sua caneta pensa ser dono dessa ablução.
A poesia, toda ela, sempre esteve muito solta por aí.
É como luz em fresta de janela que aparece às vezes por aqui.
Quem prende o seu raio com as letras em entrevero
é chamado de poeta ou escritor.
E me olha a poesia com sorriso matreiro
e me deixa pensar que sou seu autor.
Jairo Martins
INSOLUÇÃO (Jairo Martins)
Quisera dar-te a solução,
Lavar de calma tuas ânsias
E ver se um pouco descansas
Do que te aperta o coração.
Quisera entregar-te o que precisas...
Nem que fosse aliviar-te com mentiras
De que me vou porta afora,
Mas agora tu é que me tiras
A coragem de calçar estas botas
De me alçar a estas rotas,
Da visão de mais estradas
Nas minhas vistas embotadas.
Quisera dar-te até o mundo,
Mas seguiria moribundo
Num caminho que já morreu,
Sem este mundo que é teu e meu.
Quisera envolver-te numa paz,
Ou devolver-te àquela que tinhas,
Mas nem mesmo sou capaz
De alívio às agonias minhas.
Quisera enfim, tudo aquilo que não posso:
Seria abandonar o que é nosso
Transformar em mero osso o coração
E esperar o tempo roer esta razão.
E te confesso:
Quanto mais não devo, mais te quero
Quanto menos peço, mais te tenho
Quanto mais me afasto, mais te pertenço
Quanto mais penso, menos senso.
Por tudo isso te peço perdão,
Por te amar tanto assim,
Por não ter dito NÃO!
Quando dissestes SIM!
MENESTREL
Estourar-se-á teu cérebro
Com tiros de balas de mel.
Pobre de ti menestrel!
Aproxima-se teu féretro!
Poemas, tiraste-os do céu.
E, com justo efeito,
Acusa-se teu defeito:
Atiraste-os à terra do fel.
Afeito à corte e feito o corte,
Palhaço, brincadeiras a granel,
Restar-te-á somente a morte.
Sabe lá, Deus que conforte
Este falecido menestrel,
Mero jogral da sorte.
METÁFORAS-HIFENAPOSTROFADAS
Quando acordes eruditos de sons inéditos
Tocar'em teus ouvidos, aumentar-se-ão teus créditos..
Quando soarem rombos, flautas e trombetas jamais esquecidos,
Juntar-se-á tudo em tua mente.
Quando andares livre pelos campos,
Subires montanhas e despencares'm cachoeiras,
Verás que as águ'i'as não mentem;
Visão "QTÊ' será certeza.
Depois, penhasco, tempo marcado,
Pessoas, algemas, ser-te-ão mais que asco,
Pois não há depois;... Nem passado.
Coisa boa, ter desabado... Solvendo-me,
Absolvendo-me, sorvendo e me sorvendo
D'Neste mundo inteiro.
Jairo Martins
MIRÍADES
Pensei mais de mil poemas,
Mas nenhum riscou o papel.
Vivi mais de mil amores,
Só um com gosto de mel.
Estudei bem mais de mil seitas,
Nenhuma me levou para o céu.
Escrevi mais de mil palavras,
Todas elas foram escarcéu.
Tive mais de mil pesadelos,
Nem assim veio gosto de fel.
Mas as mil mortes em mim,
Estas sim; sabores a granel.
Jairo Martins
O POETA E O APRENDIZ
Tanto assunto informado
Que é múltipla a escolha,
Mas de olho interessado
Lê-se assim a melhor folha.
Árvore do conhecimento
É bem crescida e copada,
Folha a folha é alimento
À mente lúcida e informada.
Abranger sua ramada
Dá trabalho e é segredo,
Mas com a mente acordada
Vê-se todo o arvoredo.
O saber ao ser humano
É tão somente somatório
Que ele enxerga neste plano
Limitado ao envoltório.
Vai-se então ao escritório,
Trabalhar um pouco mais.
O conhecer é tão simplório
Que se quer transpor umbrais.
Muitos há que admiram
E poucos são admirados.
Os primeiros tão só viram
Seus próprios dons guardados.
Não há como ver grandeza
Além da própria em si contida.
A que admiras, com certeza,
Está em ti mesmo concebida.
Veja a grande e tal beleza
Que causa admiração.
Depois faças a proeza,
Reconheça-a no coração.
Finaliza o ensinamento
Em propriedade e conclusão,
Legando lauto argumento
A quem tem inspiração.
(Jairo Martins)
O POETA E O PESCADOR (Jairo Martins)
Um belo dia disseram,
com certa razão de fato,
que trovador e poeta não eram
homens de comida no prato.
Melhor é caniço e uma isca
à beira de mar ou de rio.
Aí pelo menos se arrisca
a não ter o prato vazio.
Creio que a poesia é anzol
e o poeta é um peixe ferrado.
À beira do céu ou do sol
vive sempre bem alimentado.
A poesia é uma linda estrada
com um nome de grande valor,
mas se a escrita for cerceada,
o poeta é então trovador.
Discutido foi o tema,
não li nada sobre isso.
Inspiração só entra em cena
como peixe no caniço.
Não se compara o escritor
ao vivente que espera,
assim como o pescador,
no anzol sua quimera.
Não se compara a poesia
nem o fruto que aí brota,
a resultado de pescaria
que cabe dentro de compota.
Muito bom é peixe frito,
pode dar água na boca.
Mas os poetas têm escrito
sempre com a alma louca.
O pescador traz a comida
que às vezes é bem pouca.
Vale mais é a guarida
do trovador com a fala rouca.
Nunca, nunca troque a vida
pelo que se leva em bolsa,
pois se o prato tem comida
vai ter que lavar a louça.
Jamais troque a poesia
por dinheiro, coisa nenhuma!
Tudo vira em agonia
e a certeza é só uma:
Ser poeta não se escolhe,
no tom da vida é que tu vives.
Esta rede não se encolhe,
suas malhas têm ourives.
E se tiveres poesia
também tu és um pescado.
Vai à porta da peixaria!
Mantém o povo alimentado.
E se tiveres desistido,
malhas da rede terão falhado.
O peixe fica apodrecido,
ninguém mais come pescado.
Ergue de novo esta tese,
mergulha no mar revolto.
Mesmo que poesia não pese,
o peixe jamais será solto.
Sina que assino embaixo,
poeta é peixe, poesia é uma rede.
Resvalo, revolvo e me encaixo
nest'água que mata minha sede.
O SINAL (Jairo Martins)
Olhar as vias vazias da cidade...
O coração aberto ao trânsito do amor.
Olhar a lua já descendo no horizonte
E o medo de que assim não seja.
Fechar os olhos,
à sombra dos sinos dobrando badaladas.
Seguir pelas estradas, até que se dobre a sina
dividida de dois olhos e devida à visão:
Os sinos multiplicam badaladas.
Os signos dividem esperanças.
Às sinas, somam-se estradas.
Aos cios, vêm mais crianças.
Os ritos dividem a fé.
Os gritos ecoam na lembrança.
Os fitos não se mantêm de pé.
E os agitos são desesperança.
À confusão, junta-se IR
O coração quer sorrir,
O pão precisa de cada dia
E a massa de harmonia.
Aos que dizem não; SIM !
Aos que falam que sim
à construção codificada,
há um não no fim da estrada.
Àqueles próprios do costume
de ser com outros o estrume,
segue a teimosia,
chama-te à atenção a poesia:
Talvez sinos dobrem cios
Talvez signos professem sinas
Talvez na fé, dissolvam-se ritos
Talvez na estrada caminhe a criança
Com o fito de manter de pé
o grito da esperança!
ÓBITO (Jairo Martins)
Abaixo a nobre Poesia,
prostrado seja todo Amor!
Viva mesmo a Burguesia,
ou qualquer coisa sem valor.
Admita-se primeiro,
poderoso este Senhor,
cujo nome por inteiro
é das almas Predador.
Estilhacem-se os olhos
ora cegos pelo amor,
para serem os espólios
deste rei destruidor.
Esmoreçam corações
tão movidos a fervor,
enregelem-se razões,
haja vista este calor.
Por um preço de banana
é trocada a valia,
vai morrendo o que ama
se a bolsa está vazia.
Uma ode ao dinheiro,
causador de tantos débitos.
Mais caixões ó marceneiro
e sepulte grandes méritos.
Uma ode ao capital
e a seus soldados mórbidos,
precursores de um mal
que produz os nossos óbitos.
Que se enterre toda ética
de um sincero coração.
Vale mesmo é a métrica
desta pobre abonação.
Está seco o sentimento,
nos bonecos dos cifrões.
Isto aqui não é lamento,
é adeus e saudações!
O BANCO
O banco é um cofre
Alugado a você.
Ele guarda os seus cobres,
Depois cobra de você.
Seu dinheiro garantido
Para outro é emprestado
E o lucro conseguido
É do banco, está falado.
E o banco lhe convence
A fazer aplicação.
Aí rende e o prazo vence,
Em cima vem a taxação
Colocar dinheiro em banco
Gesto meio idiota,
Pois o lucro que é tanto
É do banco, este agiota.
Você chega e deposita,
Logo o banco guarda tudo.
Mas o banco não hesita:
Vá sacar, ele está mudo.
Ele então lhe oferece
Um cartão que é mundial,
Que de pronto lhe parece
A garantia ser total.
Mas o banco joga duro
Quando dá a garantia,
Cobra a taxa do seguro
E já lhe corta outra fatia.
Ao usar o tal cartão,
Você pensa que é seu,
Você é mais um peão,
Para o banco é que valeu.
Lá na loja, bateu senha,
Sai dinheiro de sua conta,
Mas o banco não se empenha,
Para a loja ele apronta:
Fica mais uns muitos dias
Trabalhando com dinheiro
E quem vendeu mercadorias
Não vai ver valor inteiro.
Pois a tal da maquininha
Lá na loja funcionando,
Também custa uma taxinha
Que o banco vai cobrando.
E você e o seu dinheiro,
Mais cartão que até é pago,
Trabalharam pro banqueiro
Que de rir até está gago!
Jairo Martins
OUTRO POEMA
Quero outro poema melhor do que este,
Falando ao sistema de seu desinteresse
Pelas coisas válidas; de dentro da gente.
Que venha colorir as caras pálidas,
Impávidas na impáfia permanente,
De um vermelho-sangue-quente.
Quero, nem que último poema seja,
Que violente o ventre da moeda-mãe.
A estéril cara perder a coroa que sobeja
No estilhaço metálico da granada nua.
E no silvo do tiro me beija,
Ouvir o canto de gente boa na rua.
Quero, nem que seja o poema pior,
Venha armado de pontiagudos argumentos,
Derrubando a cartola desse estado-maior
Que arranca das bocas, lamentos.
Quero afinal, uma bomba poética
Que estoure num milhão de dentes
A roer o eixo dessa engrenagem patética,
Feito festa popular servida a pães quentes.
E na ciranda da vida, um poema doce.
Jairo Martins
PALAVRA MUDA
Como é triste ser poeta e viver só, nesta terra. Ser assim ignorante, das melhores palavras inconsciente, para que houvesse a real poesia. Aquela que busco no obscuro do ser, aquela que só sei viver. Tivesse palavras no vocabulário - e dizê-las - nunca diria outras que seriam mazelas da poesia maldita, perseguindo-me passo a passo pela vida, vendo como único regaço, o abraço que quero com a palavra não dita. Como se não fosse este o motivo da festa, arrisco-me agressivo a dizer que em mim se detesta este repentista ativo, do qual não quero nem mesmo a rima, que me soa tal qual um crivo. Mesmo que dela até se decline este tal, que se lança em uivo que não consigo de mim uivar. Só tenho é que revelar o passo a mais que não dou e o caminho que se arvorou, independentemente até, de que se o percorra a pé ou de asas, visto que as brasas que me tostam o ser, não são aquelas que podem brilhar ou se pode ver. São estrelas que não conseguem cair. São palavras que não podem trair. São momentos onde os sentimentos nos fazem chorar e sorrir. E sorrindo canto a verdade que me diz o choro da mentira. Digo feliz que da vida não se tira o aprendiz que nela se atira. Tenho certeza de que a beleza não pode ser limitada pelas cores vistas, nem por palavras ditas. Deveria dizer mais, muito mais. Mas não vale que tudo se diga, sem que deixe um resto de dúvida. Pois há aquele que sempre duvida e seu cabresto ainda lhe faz calar. Quando livrar-se da besta, a poesia terá seu lugar...
... De volta à palavra muda, revolto-me ao ver que não muda seu palácio dentro do palhaço que a guarda. Aguarda-se que baixe a guarda o guardião do paço, para que outro passo reboe em palavra boa, pois aí a palavra muda em eco de calar a boca. Ui! Vou até o fim, buscando em mim este Uivo. Há de ser um grito, não, um berro, ainda não isso, mas um desenterro da cripta que grita lá dentro! E, meu único alento é dizer que a palavra não muda. (Jairo Martins)
PAVILHÃO NACIONAL
O verde da bandeira já não é nossas matas,
mas a cor do dólar que nos mata.
O amarelo, já não é nosso ouro,
mas a cor da saúde na cara do povo.
O nosso céu já não é tão azul,
o cruzeiro, de há muito se perdeu do sul.
A linda faixa, tão branca, tão pura,
transformou-se em mordaça e atadura.
E onde se lê: "Ordem e Progresso",
Leia-se: regresso à escravatura !
Jairo Martins
HOMEM DE LATA
O homem de lata não late,
Jaz na lápide que lota.
O homem de lata não luta,
Jaz na lápide em que labuta.
Estou de luto pelo homem de lata
Que enlata a luta.
Delato e deleto o delito do lote
Que labuta sua lápide na lata.
Não sou de lata nem que late,
Sou de outro quilate.
Levanto a lápide letal à lata,
Lavo e levo esta luta.
Jairo Martins
POEMA-CRÍTICA
Seja poesia água benta em noss'alma,
Sejamos balaios dessa calma escorrendo pela vida,
Ateando luz, apagando fogo de ferida.
E a palavra, mesmo que adaga seja,
cinja-nos de verdades que nos façam sonhar
com poemas de acordar.
Felicidade escape à utopia, venha a ser alvitre interno.
O coração mais terno, avesso à subserviência.
Por experiência, o cão mais manso
estraçalhe a dentes as correntes de quem o pensa propriedade.
Ao sopro, ventarolas as árvores, para outras multi-flores.
Assim, há que voar, caminhar e mergulhar para a mítica,
Porém, veraz, arder e urdir no fogo e na luz.
E o poema aqui se reduz na palavra CRÍTICA.
Sim, porque a destinatários díspares,
Vai trajado de impaciência como vértice,
andrajado em decepção como vórtice,
instando àlguns deles que acordem,
implorando a outros que desistam.
Pois que a poluição parece que a tudo atacou neste planeta.
A sons, ares, luzes, terras e águas não lhe basta a vendeta.
Migra aos neurônios, às psiquês, aos ozônios; ô zona!
E avança peremptória também sobre a literatura,
sabe-se lá por que estros!
Mendaz, espalhando agrura, perante o pasmo de uns encontra viço,
é pasto comum a simplórios;
medra através de literatiços, mas gera revolta em alguns.
Absolvência a conservadorismos, e, de um salto, a modernismos, de outro maior, aos etc. Nunca houve mesmo escopo salutar à palavra, haja vista nela mesma a constante proposta à transgressão.
Mas a própria natureza sempre tratou de seleção, tangendo à excelência desde amebas a quadrúpedes e bípedes.
Mas títeres não!
Estatelada no papel, a palavra.
Esta tela dá mel. Palavra! JAIRO MARTINS
POEMA ÚLTIMO
Tu o conheceste em su'alma,
sangue, sêmen e suor.
Tu te lavaste em sua urina,
Bebeste-o todo em plena calma...
Sabes jamais haver nada melhor.
E agora, ao fechar da cortina,
jamais esquecerás
de quem te roubou a paz
e te fez desconfiar de outra maior.
Nas emoções entre homem e mulher,
qualquer outro te será homem qualquer.
No palco do teatro da vida medíocre,
o fantasma opera na lembrança,
abre a capa à tua fronte pasma,
sem nenhuma esperança...
O Anjo Proibido voou.
Jairo Martins
Excerto de “POEMA RASGADO”
...
"A maré cheia pode apagar os escritos na areia.
O tempo pode varrer da memória muitas palavras,
fazer nascerem e morrerem línguas e sociedades,
transformar construções em ruínas,
revelar mentiras e verdades;
e das ruínas nova construção.
Mas não apaga essa potestade: POESIA!
Essa heroína crava palavras no coração."
...
Jairo Martins
BEIJO AO ESCRITOR
Como é bom escrever!
Como se sente grato nesse instante!
Em que infante se torna quando faz assim?
Que céu se entorna de paz sem fim?
Como não pensar maravilhoso o que lhe aconteceu,
quando sequer imaginava tal coisa sobre si?
Que beijo é esse, tão doce como se nem fosse
e ao mesmo tempo morde a doídos dentes
uns doidos inteligentes?
Jairo Martins
............................
BEIJA-ME
Beija-me como voluntário convocado,
beija-me como sempre tenho te beijado,
beija-me com um beijo apaixonado.
Jairo Martins
.............
RECORDAÇÕES DO ITAJAÍ-AÇU
Desde a ponte de ferro à praça
Vinha a nado quando era criança
Água fresca, dádiva e graça,
Esse tempo não sai da lembrança
Hoje em dia tu estás poluído
Mesmo assim são belas tuas curvas
Aquele tempo ainda está refletido
Em tuas águas que agora são turvas
Eram limpas, tom esverdeado
Via o fundo quando mergulhado
O teu leito de areão espalhado
Lembro de criança os folguedos
Nas tuas águas afogava meus medos
Nadando e descobrindo segredos
Jairo Martins
DESEJO
(do livro “O Arauto”)
Que as árvores derrubassem os prédios
Que o ar soprasse a fumaça
Que as águas lavassem as tintas
Que o fogo queimasse os venenos
Que o dinheiro fosse mel e não lama
Que o som das bombas fosse música
Que o choro das crianças fosse gritos de alegria
Que a fome fosse comida
Que as cadeias fossem colégios
Que os hospitais fossem vazios
Que o fraco fosse forte e o forte fosse bom
Que a vida fosse vida,
não apenas caminho para a morte
Que a paz vencesse a guerra
e no final o amor matasse o ódio!
Jairo Martins
LEMBRANÇA
(do livro “O Arauto”)
Fala com teu mais velho parente,
Pede a ele que te fale de antigamente.
Dos rios, dos pássaros, do carro de boi.
Pede a ele que te conte do tempo que foi.
Podes chamá-lo mentiroso ou sonhador,
Por ele te falar de vida e não de dor.
Podes até pensar que sua mente está deturpada,
Mas é a tua que ao ouvir fica maravilhada.
Quando te disser que canário se pegava de balaio,
Que a passarinhada era tanta lá pelo mês de maio.
E eram tantas e tão lindas as flores,
Que ele não conseguia contar-lhes as cores.
Ele não conhecia nem pressa nem guerra,
A comida não era em lata, vinha da terra.
Ele pescava e tomava banho no rio quando garoto
E a água era clara e não se via um só esgoto.
O fogão a lenha aquecia na falta da vidraça,
Ele brincava ao ar livre, livre porque não havia fumaça.
Brincava no mato de esconderijo secreto
E corria na grama verde que hoje é cinza concreto.
Pede ao teu mais velho parente,
Para ele te falar de antigamente...
Tinha sombra de pinheiro e pandorga no mês de agosto.
A gente conta o dinheiro para pagar o imposto.
Ele vivia despreocupado e contente
A gente é atarefada e se cuida para não ficar doente.
Ele tinha fantasia, amor e bicho-papão.
Nós temos a hipocrisia, a dor e a poluição.
Jairo Martins
O RIO
Sozinho no silencio do mato
O rio a roncar e correr,
Pergunta-se se de fato
Pode assim rolar e verter
Borbulhante, sadio, caudaloso,
Corrente que não é de prender,
Portento maravilhoso.
Na paz dos espíritos sonhado,
Serpente da vida em seu eito
Agora em roldão acordado,
Um beijo vai dando no leito
Para tantos e tudo e todos,
Seguindo garboso e perfeito
E a terra agradece nos lodos.
Não espera o encontro severo
No caminho pelas terras da fera,
Onde o leito se lhe torna austero
E altera seu cristal da saída.
Ele flui doce, alegre e sincero
No seu curso somente de ida,
Mesmo escura a cor de sua vida.
Num remanso ainda ele gira,
Mais um pouco e segue a descer,
Vem a fera e lhe põe um tentáculo
Poluído, drogado e de ira,
Um fio de esgoto a escorrer.
Não lhe importa aquele obstáculo,
Vai passando, deixa a fera morrer...
Jairo Martins
PAI BRASIL
DEDICADO AOS PAIS BRASILEIROS,
AO PAÍS DOS BRASILEIROS.
Pai, não aceites este governo como pai!
Ele é teu empregado, admitido por ti.
Pai, nunca digas nenhum Ai! Por aqui.
Demitas a choldra, antes de chorares
Por melhores ares.
Dos teus filhos garantas a comida,
Eliminando estes genocidas
Que não são pais do país.
Pai, sejas feliz!
Dês um abraço no teu filho,
Derrubando do trilho
Quem quanto mais fala, mais mentira diz.
E sejas mais um bom pai no país.
Feliz "Dia dos Pais" em todo o país.
Jairo Pacheco Martins
O
BANCO
O banco é um cofre
Alugado pode crer.
Ele guarda os seus cobres,
Depois cobra de você.
Seu dinheiro garantido
Para outro é emprestado
E o lucro conseguido
É do banco, está falado.
E o banco lhe convence
A fazer aplicação.
Aí rende e o prazo vence,
Em cima vem a taxação
Colocar dinheiro em banco
Gesto meio idiota,
Pois o lucro que é tanto
É do banco, este agiota.
Você chega e deposita,
Logo o banco guarda tudo.
Mas o banco não hesita:
Vá sacar, ele está mudo.
Ele então lhe oferece
Um cartão que é mundial,
Que de pronto lhe parece
A garantia ser total.
Mas o banco joga duro
Quando dá a garantia,
Cobra a taxa do seguro
E já lhe corta outra fatia.
Ao usar o tal cartão,
Você pensa que é seu,
Você é mais um peão,
Para o banco é que valeu.
Lá na loja, bateu senha,
Sai dinheiro de sua conta,
Mas o banco não se empenha,
Para a loja ele apronta:
Fica mais uns muitos dias
Trabalhando com dinheiro
E quem vendeu mercadorias
Não vai ver valor inteiro.
Pois a tal da maquininha
Lá na loja funcionando,
Também custa uma taxinha
Que o banco bai cobrando.
E você e o seu dinheiro,
Mais cartão que até é pago,
Trabalharam pro banqueiro
Que de rir até está gago!
Jairo Martins
poeta / escritor / revisor de textos
FINADOS
Lá na floricultura
Vão decepando a vida,
Para tornar colorida
A pedra da sepultura.
A simples morte vindoura
Sonhando ser duradoura,
A outras mortes enfeita,
Mas logo com elas se deita.
No dia tido dos mortos
Faço um brinde à vida,
Que sei lá por caminhos tortos
Tem na lápide sua saída
E segue sabe lá por que vias,
Talvez aos confins do universo.
Deitam flores nas pedras vazias,
Enquanto com os mortos converso.
Jairo Martins
PÃO & POESIA
OLHA SÓ "PÃO & POESIA",
COMO FOI GRANDE O TROTE:
TINHA PÃO E O POVO LIA
BONS POETAS NO PACOTE.
INESQUECÍVEL O MOMENTO
DUMA GRANDE TRAIÇÃO,
NA "E. CULTURA EM MOVIMENTO"
AZEDARAM ESTE PÃO.
PENSANDO EM VOTO-SIMPATIA
ATÉ DISSERAM PRO POVÃO
QUE ELE ESCREVE POESIA
E TAMBÉM SAI NO SACOLÃO.
COM A TAL DEMOCRACIA,
FAZ DE CONTA SER SIMPÁTICA,
TODO MUNDO É POESIA,
FAZ PARTE DESSA PRÁTICA.
LITERATURA, SACO CHEIO
VÊ QUE O PÃO SAI EM FATIA,
ENFASTIA E NEM NO MEIO...
NÃO TEM MAIS A POESIA.
JAIRO MARTINS
SAUDADES DO POEMA
Tenho saudades dum poema,
qual é ele não sei bem...
Mas um vivo acorda relembrando lá do horto,
onde tem...
Um dia passa na vida da gente
que não volta jamais,
ou talvez o que a gente sentiu um dia na vida
e já não sente mais.
Lembro formosura,
não tinha forma alguma o poema.
Entrou em cena; não foi a galope,
não veio com redondilhas,
nem enessílabos em suas trilhas.
Não dava sono, nem baladas, nem soneto,
também não trova.
E posto à prova,
Lembro era árvore incivil.
Tinha primazia intelectual,
sem a poda vil
da “prima azia” da braçalidade mental,
que deixa a árvore “quadrinha”, senão, ai! Cai!
Não era montinho de palavras num pacote
com algum mote apelidado de poema.
Caminhava a pés descalços,
dedos livres, ventilados,
seus olhos lacrimavam aos poemas mutilados.
Tenho saudades desse poema...
Suas palavras formavam
“abre-cabeça” inusitado,
pois não eram peças
de quebra-cabeça formatado.
A metáfora e a parábola dançavam juntas
à sombra daquela frondosa árvore.
Ora esgueiram-se daquelas eiras
como separadas defuntas,
tais cães sob coleiras
a fazerem cocô nos ladrilhos,
e seus donos a recolherem poemas desses trilhos.
Pois é... Não lembro mais daquele poema.
Sento-me à sombra de sua saudade.
Vejo o vento varrendo
folhas secas e amarelas pelo chão...
Lembro infante, jogo de pular amarelinha,
mas como no jogo do poeta “amar é linha”,
saio saltitando pelo endereço poesia,
até que encontre esta saudade minha...
Original.
Jairo Martins